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Carlos Chagas
A ABIN e o decreto dos direitos humanos

Organismos de informação mostram-se, na teoria, avessos
à propaganda. Precisam trabalhar em silêncio, seja
na coleta e análise dos fatos, seja quando realizam operações
variadas, umas legais, outras nem tanto. O antigo SNI
saiu pelo ralo porque seus mentores, desde o general Golbery
do Couto e Silva, não se continham na prática de auto-promover-
se como um super-poder, um “Grande Irmão” que tudo via
e de tudo participava. Precisamente o oposto de sua finalidade.
O “monstro” que seu fundador reconhecia haver criado acabou
sucedido pela Abin, que custou a deslanchar, enfrentou obstáculos
e incompreensões, vendo-se envolvida em questiúnculas
desimportantes e paralisantes. Mas a agência está aí, funcionando
sob a supervisão do general Jorge Felix, competente a ponto
de obter que sua fotografia raramente saia nos jornais, ao tempo
em que as colunas de fofocas não o tem como personagem.
O problema é que a Abin existe para municiar o presidente
da República de informações e previsões a respeito da realidade
política, social, econômica e administrativa, nacional e internacional.
Ignora-se como essa prática se desenvolve, pois o
general Felix não faz parte do Conselho Político do governo.
Nem de qualquer outro conselho palaciano, desses rotineiros.
Se as informações e análises vão por escrito, se seguem via
Internet ou são transmitidas verbalmente ao Lula, ninguém
sabe. O mais provável é que se boletins diários fossem levados
ao presidente, teriam o mesmo fim daqueles que durante dois
anos a CIA encaminhava ao então presidente Richard Nixon e
eram arquivados numa suíte do Hotel Pierre, em Nova York, formando
vasta pilha de papéis inúteis, não lidos. Até que deixaram
de ser enviados.
Todo esse preâmbulo se faz em função de uma dúvida: teria
a Abin alertado o presidente Lula para os efeitos negativos que
o Plano Nacional de Direitos Humanos despertaria na sociedade,
desagradando e colocando em estado de insurgência variados
segmentos? Não teria sido difícil prever que as forças armadas
estrilariam diante da possibilidade de revisão da Lei da Anistia e
da abertura de processos contra antigos agentes do poder público
acusados de crimes de tortura, sem a correspondente do
enquadramento dos terroristas. Mais fácil seria saber que a
Igreja rejeitaria o casamento gay, a descriminalização do aborto
e a supressão de símbolos religiosos nas repartições públicas.
Parecia óbvio que os setores do agronegócio, com o ministro da
Agricultura à frente, reagiriam diante de obstáculos antepostos
à reintegração de posse de terras produtivas invadidas pelo MST.
Ou que os barões da imprensa não aceitariam calados a formação
de um conselho destinado a analisar o conteúdo editorial das
emissoras de rádio e televisão, ainda mais diante da perspectiva
de cassação das respectivas concessões.
Teria a Abin produzido em tempo útil uma apreciação do
decreto dos Direitos Humanos e de seus efeitos? A análise, se
existente, terá chegado ao presidente Lula antes da assinatura
e da publicidade do texto? Ou tudo se explica na forma singular
de que nenhum estudo foi elaborado pela Abin porque, se
fosse, não seria lido. Assim como o decreto também não foi...
SALTANDO DE BANDA
As aparências continuam enganando. Ouve-se nos corredores
do poder que Helio Costa estaria sensibilizado com a hipótese
de tornar-se candidato à vice-presidência na chapa de
Dilma Rousseff, abandonando as pretensões de suceder Aécio
Neves como governador de Minas.
É tudo espuma, porque na verdade o ministro das
Comunicações treme de pavor diante da possibilidade de trocar
uma eleição provável, conforme as pesquisas, por uma aventura
perigosa que o deixaria afastado da vida pública por quatro
anos. Ou a candidata do PT será a favorita na disputa presidencial?
Subir as escadarias do Palácio da Liberdade ou olhar de
longe um tucano subindo a rampa do Planalto pode constituirse
numa decisão.
A propósito do futuro companheiro de chapa da candidata ,
deve estar feliz o deputado Michel Temer, depois de ter sido
escanteado pelo presidente Lula. Precisa demonstrar inconformismo,
é claro, mas sua estratégia é parecida com a de Hélio
Costa: perder a eleição com Dilma ou continuar na presidência
da Câmara no biênio 2011-2012?
 
     
Carlos Chagas
O churrasco e os aviões de caça - Set/2009
 
     
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