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No elevador
Pensando na mediocridade que nos assola, lá vou eu tratar do espesso tártaro que arruína minhas arcadas dentárias. Trabalho de lixeiro, é verdade, só minha delicada dentista tem a santa paciência de praticálo, mas que jeito? Sem ele, ai de gengivas, raízes e adjacências bucais. Entro no elevador. No painel, botões que só os iniciados nos mistérios do prédio são capazes de decifrar. Na numeração dos andares, nenhum problema – mas também, era só o que faltava eles estarem, por exemplo, escritos em algarismos romanos. Seria surreal. No painel, um PO, o que será esse PO? Paulo Octávio é que não é, o edifício nada tem a ver com ele. Dias depois, descubro que quer dizer press to open, mas quem sabe? E um enigmático PP, que tal? Sabe o que é? É piso da praça (da alimentação), homessa! – o velho térreo, sob o “manto diáfano da fantasia...” Puxo pela memória e me lembro de outros botões misteriosos em elevador. Quem poderia supor que RC indica térreo? Curioso, pergunto ao porteiro, mas o moço não tem a mais mínima ideia. Procuro o síndico, ele explica que a fábrica do elevador é francesa e que o botão RC quer dizer rez-de-chaussée! Em português até que coincidiria com a expressão rês do chão, mas só um adivinho mata essa charada. Em Natal, um hotel cinco estrelas se esmera. O sujeito entra no elevador e vê diante de si um painel com as seguintes letras: J, P, V, M, S e G. Tradução para o atônito passageiro: J é jardim, P é piscina, V é varanda, M é sala de massagem, S é sauna e G é galeria de arte! Um exercício de decoreba para o hóspede! Por falar em aperto no elevador, outros apertos há no cubículo. Por exemplo, a situação do cabineiro, sofrido e frustrado profissional. Passa o dia espremido entre desconhecidos, respirando gases, vapores e suores alheios. Gente encharcada de vil colônia ou a sublime fragrância da mocinha que roça em seu ombro os seios empinados. Sem falar nos que começam a contar a última do português no quarto andar e saltam no oitavo às gargalhadas deixando na mão um ansioso e desinformado cidadão brasileiro. Frases soltas, filosofia de boteco: “Natal só tem uma vez por ano”, “tanto faz morrer de desgraça como de insucesso”, “o marido não sabe por que está batendo mas a mulher sabe por que está apanhando”. As lodaças de sempre: “Tudo bem? – Estamos aí”, “Parece que vai chover – É, o tempo está maluco”, pobre elenco de vacuidades. “Adivinha quem está saindo com a Sueli, aquela gostosa do sexto andar”, “Me contaram uma história incrível do Lemos. Imagine você que ele...”, “Tive um sonho batata hoje. Não pode dar outra coisa no bicho, o negócio é jogar no...”, “Vou lhe contar uma coisa importantíssima, mas não espalha. O Dr. Ezequiel...”. E segue a viagem vertical sem o pobre ascensorista escutar o final feliz ou infeliz, tampouco a dica do dia. Sim, pois quem que dá a mínima para o ávido cabineiro? Aliás, quem alguma vez na vida se lembrou de uma viagem de elevador? Subiu, desceu, saiu e pronto. Lá fica o moço com água na boca ou com a cabeça virada. Correr atrás do passageiro? Nem pensar! É verdade que seu carro não conhece o sobressalto de curvas imprevistas, derrapagens ou bêbados na contramão. Em compensação, ele não vê o arco-íris. Seu horizonte está a um palmo do nariz. Todo mundo passa por aquelas quatro paredes, só ele não fica sabendo para quem a Verinha deu...
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