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Márcio Cotrim
No elevador

Pensando na mediocridade que nos assola, lá vou eu
tratar do espesso tártaro que arruína minhas arcadas
dentárias. Trabalho de lixeiro, é verdade, só
minha delicada dentista tem a santa paciência de praticálo,
mas que jeito? Sem ele, ai de gengivas, raízes e adjacências
bucais.
Entro no elevador. No painel, botões que só os iniciados
nos mistérios do prédio são capazes de decifrar. Na numeração
dos andares, nenhum problema – mas também, era só o
que faltava eles estarem, por exemplo, escritos em algarismos
romanos. Seria surreal.
No painel, um PO, o que será esse PO? Paulo Octávio é
que não é, o edifício nada tem a ver com ele. Dias depois,
descubro que quer dizer press to open, mas quem sabe? E
um enigmático PP, que tal? Sabe o que é? É piso da praça (da
alimentação), homessa! – o velho térreo, sob o “manto diáfano
da fantasia...”
Puxo pela memória e me lembro de outros botões misteriosos
em elevador. Quem poderia supor que RC indica
térreo? Curioso, pergunto ao porteiro, mas o moço não
tem a mais mínima ideia. Procuro o síndico, ele explica
que a fábrica do elevador é francesa e que o botão RC quer
dizer rez-de-chaussée! Em português até que coincidiria
com a expressão rês do chão, mas só um adivinho mata
essa charada.
Em Natal, um hotel cinco estrelas se esmera. O sujeito
entra no elevador e vê diante de si um painel com as seguintes
letras: J, P, V, M, S e G. Tradução para o atônito passageiro:
J é jardim, P é piscina, V é varanda, M é sala de massagem,
S é sauna e G é galeria de arte! Um exercício de decoreba
para o hóspede!
Por falar em aperto no elevador, outros apertos há no
cubículo. Por exemplo, a situação do cabineiro, sofrido e
frustrado profissional. Passa o dia espremido entre desconhecidos,
respirando gases, vapores e suores alheios.
Gente encharcada de vil colônia ou a sublime fragrância da
mocinha que roça em seu ombro os seios empinados. Sem
falar nos que começam a contar a última do português no
quarto andar e saltam no oitavo às gargalhadas deixando
na mão um ansioso e desinformado cidadão brasileiro.
Frases soltas, filosofia de boteco: “Natal só tem uma vez
por ano”, “tanto faz morrer de desgraça como de insucesso”,
“o marido não sabe por que está batendo mas a mulher sabe
por que está apanhando”.
As lodaças de sempre: “Tudo bem? – Estamos aí”,
“Parece que vai chover – É, o tempo está maluco”, pobre
elenco de vacuidades.
“Adivinha quem está saindo com a Sueli, aquela gostosa
do sexto andar”, “Me contaram uma história incrível do
Lemos. Imagine você que ele...”, “Tive um sonho batata hoje.
Não pode dar outra coisa no bicho, o negócio é jogar no...”,
“Vou lhe contar uma coisa importantíssima, mas não espalha.
O Dr. Ezequiel...”.
E segue a viagem vertical sem o pobre ascensorista escutar
o final feliz ou infeliz, tampouco a dica do dia. Sim, pois
quem que dá a mínima para o ávido cabineiro? Aliás, quem
alguma vez na vida se lembrou de uma viagem de elevador?
Subiu, desceu, saiu e pronto. Lá fica o moço com água na
boca ou com a cabeça virada. Correr atrás do passageiro?
Nem pensar!
É verdade que seu carro não conhece o sobressalto de
curvas imprevistas, derrapagens ou bêbados na contramão.
Em compensação, ele não vê o arco-íris. Seu horizonte
está a um palmo do nariz. Todo mundo passa por aquelas
quatro paredes, só ele não fica sabendo para quem a
Verinha deu...
 
     
Márcio Cotrim
Lição de Inglês - Set/2009
Água e luz na noite de Brasília - Out/2009
 
     
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