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Lua de mel
Foi uma troca de olhar que os levou à união repentina e prometida para a vida toda. Eulálio nunca havia visto olhos verdes tão fulminantes. Não era um verde comum, como fundo de garrafa. Eles refletiam o Sol e, em faíscas, atingiram seus modestos olhos castanhos. A multidão se desfez num segundo. Gilda estendeu-lhe as mãos e, sem dizer palavras, o conduziu por entre árvores frondosas. Sentou-se no gramado úmido e pediu-lhe que passasse a palma da mão sobre os olhos. Ele recusou, alegando que preferia admirar-lhe os olhos, que, agora, refletiam, num verde-escuro, a penumbra. Falaram da infância, da juventude, dos estudos, dos concursos, da família, dos sonhos e do futuro. Em dois meses estavam casados. Gilda havia lhe dito que era virgem e que não admitia avanços ou insinuações sobre sexo: – O homem da minha vida me possuirá para todo o sempre. Desde menina, quando tomei conhecimento das relações entre homens e mulheres, decidi que nunca nenhum homem tocaria em meu corpo, senão após o casamento civil e religioso. Eulálio, compreensivo, acatou a decisão. Esmeraram-se nos preparativos do enlace. As economias se juntaram para oferecer aos parentes e amigos a melhor festa do mundo. No dia de Natal, afinal, se casaram e foram para a lua de mel. O local, escolhido a dedo por Gilda, foi uma pousada no interior de Minas Gerais, nas montanhas. O chalé ficava numa área elevada e com uma cachoeira que corria suas águas límpidas ao lado da suíte. O casal chegou ao anoitecer. A dona da pousada mostrou o ambiente e relacionou tudo o que Gilda havia solicitado. Com uma lista, indicou cada item: — Ali está a cesta com frutas da estação; na geladeira, frios sortidos, pães, seis garrafas de champanhe e uma dúzia de garrafas do melhor vinho; a cama coberta com lençóis de seda; toalhas felpudas, tapetes brancos e velas, muitas velas. Gilda agradeceu e disse: — Ficaremos sem sair por três dias. Por favor, não queremos receber ninguém, nem atender telefones. Nos alimentaremos de amor. Eulálio vibrou com a determinação da companheira. Enquanto Gilda se despedia da anfitriã, correu para o banheiro e tomou uma chuveirada para esfriar o corpo. Saiu coberto com a toalha. Aproximou-se de Gilda e beijou-lhe a nuca. Ela estremeceu, mas pediu-lhe que ajudasse na arrumação das malas. Ele, excitado, abriu uma garrafa de champanhe e deixou que algumas gotas escorressem sobre as costas sedosas de Gilda. Ela sorriu e, continuando na tarefa das malas, disse com olhar malicioso: — Aguarde-me, seu encantador de virgens. Após a arrumação, Gilda trancou-se no banheiro. Eulálio só ouvia o chacoalhar da água na banheira. Ficou na varanda bebericando. Ela chegou numa camisola vermelha transparente sem nada mais sobre a pele. Trazia nas mãos uma maçã e uma taça borbulhando. Sem palavra alguma, acariciou os cabelos de Eulálio e beijou-lhe a boca. Um beijo louco, ávido, interminável. Eulálio quase ficou sem fôlego. Ali mesmo, na varanda, consumaram o casamento. Foram três dias de amor intenso. Voltaram felizes e exaustos. Na festa de Ano Novo, em casa de parentes, Gilda vestiu-se com a roupa branca transparente que encomendara. Antes de sair, recomendou: — Irei de calcinha amarela para ter prosperidade. Não se esqueça de colocar a cueca vermelha que está sobre a cama. É a cor da paixão. Eulálio, depauperado, respondeu: — Meu amor, o que mais quero, nestes dias, é paz dentro das minhas vestimentas. Vou de branco.
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