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Revista Março 2010
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Paulo Castelo Branco
Lua de mel

Foi uma troca de olhar que os levou à união repentina
e prometida para a vida toda. Eulálio nunca havia
visto olhos verdes tão fulminantes. Não era um verde
comum, como fundo de garrafa. Eles refletiam o Sol e, em
faíscas, atingiram seus modestos olhos castanhos.
A multidão se desfez num segundo. Gilda estendeu-lhe as
mãos e, sem dizer palavras, o conduziu por entre árvores
frondosas. Sentou-se no gramado úmido e pediu-lhe que
passasse a palma da mão sobre os olhos. Ele recusou, alegando
que preferia admirar-lhe os olhos, que, agora, refletiam,
num verde-escuro, a penumbra. Falaram da infância,
da juventude, dos estudos, dos concursos, da família, dos
sonhos e do futuro.
Em dois meses estavam casados. Gilda havia lhe dito que
era virgem e que não admitia avanços ou insinuações sobre
sexo: – O homem da minha vida me possuirá para todo o sempre.
Desde menina, quando tomei conhecimento das relações
entre homens e mulheres, decidi que nunca nenhum homem
tocaria em meu corpo, senão após o casamento civil e religioso.
Eulálio, compreensivo, acatou a decisão.
Esmeraram-se nos preparativos do enlace. As economias
se juntaram para oferecer aos parentes e amigos a melhor
festa do mundo. No dia de Natal, afinal, se casaram e foram
para a lua de mel. O local, escolhido a dedo por Gilda, foi
uma pousada no interior de Minas Gerais, nas montanhas. O
chalé ficava numa área elevada e com uma cachoeira que
corria suas águas límpidas ao lado da suíte.
O casal chegou ao anoitecer. A dona da pousada mostrou
o ambiente e relacionou tudo o que Gilda havia solicitado.
Com uma lista, indicou cada item: — Ali está a cesta com
frutas da estação; na geladeira, frios sortidos, pães, seis garrafas
de champanhe e uma dúzia de garrafas do melhor
vinho; a cama coberta com lençóis de seda; toalhas felpudas,
tapetes brancos e velas, muitas velas.
Gilda agradeceu e disse: — Ficaremos sem sair por três
dias. Por favor, não queremos receber ninguém, nem atender
telefones. Nos alimentaremos de amor.
Eulálio vibrou com a determinação da companheira.
Enquanto Gilda se despedia da anfitriã, correu para o
banheiro e tomou uma chuveirada para esfriar o corpo. Saiu
coberto com a toalha. Aproximou-se de Gilda e beijou-lhe a
nuca. Ela estremeceu, mas pediu-lhe que ajudasse na arrumação
das malas. Ele, excitado, abriu uma garrafa de champanhe
e deixou que algumas gotas escorressem sobre as costas
sedosas de Gilda. Ela sorriu e, continuando na tarefa das
malas, disse com olhar malicioso: — Aguarde-me, seu
encantador de virgens.
Após a arrumação, Gilda trancou-se no banheiro. Eulálio
só ouvia o chacoalhar da água na banheira. Ficou na varanda
bebericando. Ela chegou numa camisola vermelha transparente
sem nada mais sobre a pele. Trazia nas mãos uma
maçã e uma taça borbulhando.
Sem palavra alguma, acariciou os cabelos de Eulálio e
beijou-lhe a boca. Um beijo louco, ávido, interminável.
Eulálio quase ficou sem fôlego. Ali mesmo, na varanda, consumaram
o casamento. Foram três dias de amor intenso.
Voltaram felizes e exaustos. Na festa de Ano Novo, em
casa de parentes, Gilda vestiu-se com a roupa branca transparente
que encomendara. Antes de sair, recomendou: —
Irei de calcinha amarela para ter prosperidade. Não se
esqueça de colocar a cueca vermelha que está sobre a cama.
É a cor da paixão. Eulálio, depauperado, respondeu: — Meu
amor, o que mais quero, nestes dias, é paz dentro das minhas
vestimentas. Vou de branco.
 
     
Paulo Castelo Branco
Boa Ideia - Set/2009
Os anéis - Out/2009
 
     
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