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Revista Março 2010
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Histórias Miúdas
O PRESENTE
Conta o Heitor Castelo Branco Filho que no interior do Piauí, lá pelos anos 40, havia um juiz
muito íntegro. Era conhecido como austero, competente e incorruptível, o que lhe custara várias
preterições nas listas de promoção. Um caboclo procurou um advogado para que o defendesse numa
questão. O causídico, após estudar o processo, informou-lhe que a causa era praticamente perdida
e que o melhor era ele procurar logo fazer um acordo com a parte contrária.
– Mas doutor, disse o caboclo, e se eu mandar um presente para o juiz, será que a gente ganha a
causa?
– Se você mandar um presente para o juiz aí é que você está mesmo perdido. O homem é muito sério e honesto, já lhe
avisei – aconselhou o advogado.
Embora sabendo que praticamente não tinha chances de ganhar a causa, o advogado continuou patrocinando a defesa
do cliente. E qual não foi a surpresa quando, passadas algumas semanas, o juiz deu a sentença favorável ao seu constituinte.
O homem ficou estupefacto. Não dava para acreditar. Procurou o constituinte:
– Homem, nós ganhamos. Foi um verdadeiro milagre!
– Milagre nada, doutor. Foi o presente que eu mandei para o juiz.
– O quê? Você teve a coragem de mandar um presente para o juiz?
– Mandei sim, doutor. Mas foi no nome do meu adversário...

DEU MACACO
Viciado no jogo-do-bicho, João Pedro dos Santos,
cabo eleitoral do PMDB, não deixava de fazer sua fezinha
todos os dias. Interpretava os sonhos, elegia o bicho
contido na “mensagem” e jogava, quase sempre para
perder. Certa noite sonhou que um enorme urso o perseguia
pelo mato. Ele corria e de vez em quando olhava
para trás e via o urso agitando as patas dianteiras, como
se estivesse a chamá-lo. E ele correndo, o urso perseguindo
e acenando. Acordou a decidiu fazer um jogo
pesado no animal do sonho. Não tinha dinheiro.
Afrouxou uma válvula do rádio da mulher, que era uma
verdadeira maníaca por novelas, e, sob o pretexto de
levar o aparelho para o conserto, foi empenhá-lo num
agiota, certo de que iria ganhar uma bolada e logo o resgataria.
Às cinco da tarde saiu o resultado do jogo. Deu
macaco na cabeça. João Pedro entrou em pânico. E o
rádio? Como explicar à mulher que o colocara no
“prego”? Ia ser uma briga de foice em casa. E foi contar
o seu drama, no bar mais próximo, ao “senador Vieira”,
depois de boas doses de cachaça, fiadas. Vieira ouviu a
história e tratou de decifrar o sonho do amigo:
– Ora, João Pedro, você é que foi burro. Não entendeu
que o urso acenava para você justamente lhe chamando
para dizer que ia dar macaco?

A NOVELA
A sogra do Ivanildo – alto funcionário da SUDENE, o
encarregado de liberar recursos para os projetos que
recebiam incentivos fiscais do chamado 34/18 – era
viciada em novelas de TV. Dona Generosa acompanhava
atentamente todas elas. Não perdia um só capítulo. Só ia
dormir quando não tinha mais novela em nenhum canal.
Certo dia, no terraço da casa do genro, a família reunida
aguardava a transmissão de um jogo de futebol entre o
Brasil e a Irlanda. Quando a emissora começou a transmitir,
diretamente de Dublin, o locutor, entusiasmado,
com aquela eloquência típica de radialista esportivo,
anunciou que era mais uma transmissão ao vivo, via satélite,
fruto da mais moderna tecnologia das comunicações.
Para que vocês tenham uma ideia da distância que
nos separa, dizia ele, basta ver a diferença de fusos horários.
Aqui na Irlanda são precisamente oito horas da
noite, enquanto aí no Brasil o sol brilha e são apenas
quatro da tarde. Dona Generosa, impaciente por não
haver novela naquele horário, ouviu, atenta, e falou para
a filha, mulher do Ivanildo:
– Pois é, Mariazinha. Felizes desses irlandeses que a essa
hora já estão assistindo o Cavalo de Aço, enquanto a gente
aqui no Recife ainda tem que esperar mais quatro horas.
O Cavalo de Aço era a novela das oito da Globo.

SEGURANÇA DE VOO
Foi no governo do general Figueiredo.
Viajávamos na cabina do avião presidencial, um
Boeing 737, comandado pelo brigadeiro Tarso
Magnus da Cunha Frota, que fora nosso colega na
Faculdade de Direito. O Frota discorria sobre os
equipamentos de segurança do avião, que praticamente
podia voar sozinho, sem tripulantes. E contava
que como piloto praticamente nada tinha que
fazer a bordo, a não ser seguir a orientação dos
computadores. Quase tudo era automático e funcionava
sem auxílio humano. A coisa evoluiu tanto –
dizia o brigadeiro – que de vez em quando vou à
Bahia para voar num velho B-25, uma espécie de
fusca voador, que exige da gente um bocado de trabalho
durante o voo, para pilotar de verdade. E fez
o seu prognóstico sobre o futuro da aviação:
– Sabe, dentro de algum tempo, na cabine de
um avião haverá apenas o comandante e um
cachorro.
Não esperou a nossa reação e completou:
– O cachorro é para atacar o comandante caso
ele tente tocar em qualquer coisa no painel de
instrumentos.

O “AZARÃO”
Era o ano de 1974 e a ARENA, que Francelino Pereira chamava
orgulhosamente de “o maior partido político do
Ocidente”, dava sustentação política e ares de democracia ao
regime militar e dominava o país de ponta a ponta. Os candidatos
da oposição não tinham quase chances de chegar ao
Senado ou aos governos estaduais. No Paraná, os arenistas lançaram
a candidatura de João Mansur, líder politico da regição
de Irati, que já se elegera várias vezes deputado estadual e,
como presidente da Assembleia, assumira o governo no ano
anterior. Mansur era considerado imbatível. O MDB, que era o
partido de oposição, buscava nos seus quadros quem quisesse
ser candidato a senador, mas praticamente ninguém queria
aceitar o sacrifício, pois a derrota era tida como certa. Líderes
como José Richa, Nivaldo Krieger e outros tiraram o corpo
fora. Aí apareceu um jovem advogado de Londrina, que nem
mesmo era paranaense, disposto a enfrentar o candidato do
governo. Aí ocorreu o que se chamou de “furacão emedebista”
com os brasileiros, dizimando nas urnas as candidaturas oficiais
em praticamente todo o país. O “azarão” venceu. E o
advogado Francisco Leite Chaves chegou ao Senado da
República, depois de uma campanha franciscana e por muitos
levada na gozação, com mais de um milhão de votos. Nem ele
próprio sonhava com isso. João Mansur, o favorito, ficou no
meio do caminho com pouco mais de 700 mil votos.

CONTINUA PRETO
Essa também é do tempo da ditadura de Getúlio Vargas.
No Ceará, era interventor federal Menezes Pimentel, um professor
de Direito que se tornou num dos maiores caciques do
PSD – o Partido Social Democrático – naquele estado.
Pimentel, que foi depois vice-governador e senador, era descendente
de negros, tinha a tez escura, coisa da genética. No
Palácio do Governo havia um assessor que adquiriu fama
quase nacional pelas constantes trapalhadas e a ele eram atribuídas
gafes homéricas. O interventor dedicava-lhe um carinho
todo especial, e Brasil Pinbeiro, era esse o seu nome, tornou-
se figura folclórica nos meios políticos cearenses. Certa
feita, Getúlio, no Rio de Janeiro, recebeu a notícia de que
alguém havia tentado matar o interventor com um tiro de
revólver. Imediatamente mandou passar um telegrama para o
Palácio da Luz, sede do governo estadual: “Favor informar se
o interventor foi alvejado”. No dia seguinte recebeu a reposta,
enviada por Brasil Pinheiro:
– “Não. Doutor Pimentel continua preto!”.

DUAS CARAS
Paulo Ramos, interventor do Maranhão durante a
ditadura de Getúlio Vargas, era tido como um dos
homens mais feios do Brasil. Sua fealdade era nacionalmente
conhecida e ele não se importava com os comentários
e provocações dos adversários sobre a sua pobreza
de dotes de beleza. Um dia foi procurado no Palácio dos
Leões por uma senhora a quem havia prometido um
emprego para a filha professora. A moça não foi nomeada
e, depois de vários meses de espera pelo cumprimento
da promessa, a mulher estava irritada e agressiva. Ao
entrar no pequeno gabinete do interventor, foi logo atacando:
– O senhor é um homem de duas caras. Promete e
não cumpre!.
Sem demonstrar qualquer perturbação, Paulo Ramos
saiu-se com essa:
– Ora, dona, a senhora acha que se eu tivesse duas
caras estaria usando esta?
 
     
Rangel Cavalcante
CHOQUE - Set/2009
MNEMÔNICA - Out/2009
 
     
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