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O PRESENTE
Conta o Heitor Castelo Branco Filho que no interior do Piauí, lá pelos anos 40, havia um juiz muito íntegro. Era conhecido como austero, competente e incorruptível, o que lhe custara várias preterições nas listas de promoção. Um caboclo procurou um advogado para que o defendesse numa questão. O causídico, após estudar o processo, informou-lhe que a causa era praticamente perdida e que o melhor era ele procurar logo fazer um acordo com a parte contrária. – Mas doutor, disse o caboclo, e se eu mandar um presente para o juiz, será que a gente ganha a causa? – Se você mandar um presente para o juiz aí é que você está mesmo perdido. O homem é muito sério e honesto, já lhe avisei – aconselhou o advogado. Embora sabendo que praticamente não tinha chances de ganhar a causa, o advogado continuou patrocinando a defesa do cliente. E qual não foi a surpresa quando, passadas algumas semanas, o juiz deu a sentença favorável ao seu constituinte. O homem ficou estupefacto. Não dava para acreditar. Procurou o constituinte: – Homem, nós ganhamos. Foi um verdadeiro milagre! – Milagre nada, doutor. Foi o presente que eu mandei para o juiz. – O quê? Você teve a coragem de mandar um presente para o juiz? – Mandei sim, doutor. Mas foi no nome do meu adversário...
DEU MACACO Viciado no jogo-do-bicho, João Pedro dos Santos, cabo eleitoral do PMDB, não deixava de fazer sua fezinha todos os dias. Interpretava os sonhos, elegia o bicho contido na “mensagem” e jogava, quase sempre para perder. Certa noite sonhou que um enorme urso o perseguia pelo mato. Ele corria e de vez em quando olhava para trás e via o urso agitando as patas dianteiras, como se estivesse a chamá-lo. E ele correndo, o urso perseguindo e acenando. Acordou a decidiu fazer um jogo pesado no animal do sonho. Não tinha dinheiro. Afrouxou uma válvula do rádio da mulher, que era uma verdadeira maníaca por novelas, e, sob o pretexto de levar o aparelho para o conserto, foi empenhá-lo num agiota, certo de que iria ganhar uma bolada e logo o resgataria. Às cinco da tarde saiu o resultado do jogo. Deu macaco na cabeça. João Pedro entrou em pânico. E o rádio? Como explicar à mulher que o colocara no “prego”? Ia ser uma briga de foice em casa. E foi contar o seu drama, no bar mais próximo, ao “senador Vieira”, depois de boas doses de cachaça, fiadas. Vieira ouviu a história e tratou de decifrar o sonho do amigo: – Ora, João Pedro, você é que foi burro. Não entendeu que o urso acenava para você justamente lhe chamando para dizer que ia dar macaco?
A NOVELA A sogra do Ivanildo – alto funcionário da SUDENE, o encarregado de liberar recursos para os projetos que recebiam incentivos fiscais do chamado 34/18 – era viciada em novelas de TV. Dona Generosa acompanhava atentamente todas elas. Não perdia um só capítulo. Só ia dormir quando não tinha mais novela em nenhum canal. Certo dia, no terraço da casa do genro, a família reunida aguardava a transmissão de um jogo de futebol entre o Brasil e a Irlanda. Quando a emissora começou a transmitir, diretamente de Dublin, o locutor, entusiasmado, com aquela eloquência típica de radialista esportivo, anunciou que era mais uma transmissão ao vivo, via satélite, fruto da mais moderna tecnologia das comunicações. Para que vocês tenham uma ideia da distância que nos separa, dizia ele, basta ver a diferença de fusos horários. Aqui na Irlanda são precisamente oito horas da noite, enquanto aí no Brasil o sol brilha e são apenas quatro da tarde. Dona Generosa, impaciente por não haver novela naquele horário, ouviu, atenta, e falou para a filha, mulher do Ivanildo: – Pois é, Mariazinha. Felizes desses irlandeses que a essa hora já estão assistindo o Cavalo de Aço, enquanto a gente aqui no Recife ainda tem que esperar mais quatro horas. O Cavalo de Aço era a novela das oito da Globo.
SEGURANÇA DE VOO Foi no governo do general Figueiredo. Viajávamos na cabina do avião presidencial, um Boeing 737, comandado pelo brigadeiro Tarso Magnus da Cunha Frota, que fora nosso colega na Faculdade de Direito. O Frota discorria sobre os equipamentos de segurança do avião, que praticamente podia voar sozinho, sem tripulantes. E contava que como piloto praticamente nada tinha que fazer a bordo, a não ser seguir a orientação dos computadores. Quase tudo era automático e funcionava sem auxílio humano. A coisa evoluiu tanto – dizia o brigadeiro – que de vez em quando vou à Bahia para voar num velho B-25, uma espécie de fusca voador, que exige da gente um bocado de trabalho durante o voo, para pilotar de verdade. E fez o seu prognóstico sobre o futuro da aviação: – Sabe, dentro de algum tempo, na cabine de um avião haverá apenas o comandante e um cachorro. Não esperou a nossa reação e completou: – O cachorro é para atacar o comandante caso ele tente tocar em qualquer coisa no painel de instrumentos.
O “AZARÃO” Era o ano de 1974 e a ARENA, que Francelino Pereira chamava orgulhosamente de “o maior partido político do Ocidente”, dava sustentação política e ares de democracia ao regime militar e dominava o país de ponta a ponta. Os candidatos da oposição não tinham quase chances de chegar ao Senado ou aos governos estaduais. No Paraná, os arenistas lançaram a candidatura de João Mansur, líder politico da regição de Irati, que já se elegera várias vezes deputado estadual e, como presidente da Assembleia, assumira o governo no ano anterior. Mansur era considerado imbatível. O MDB, que era o partido de oposição, buscava nos seus quadros quem quisesse ser candidato a senador, mas praticamente ninguém queria aceitar o sacrifício, pois a derrota era tida como certa. Líderes como José Richa, Nivaldo Krieger e outros tiraram o corpo fora. Aí apareceu um jovem advogado de Londrina, que nem mesmo era paranaense, disposto a enfrentar o candidato do governo. Aí ocorreu o que se chamou de “furacão emedebista” com os brasileiros, dizimando nas urnas as candidaturas oficiais em praticamente todo o país. O “azarão” venceu. E o advogado Francisco Leite Chaves chegou ao Senado da República, depois de uma campanha franciscana e por muitos levada na gozação, com mais de um milhão de votos. Nem ele próprio sonhava com isso. João Mansur, o favorito, ficou no meio do caminho com pouco mais de 700 mil votos.
CONTINUA PRETO Essa também é do tempo da ditadura de Getúlio Vargas. No Ceará, era interventor federal Menezes Pimentel, um professor de Direito que se tornou num dos maiores caciques do PSD – o Partido Social Democrático – naquele estado. Pimentel, que foi depois vice-governador e senador, era descendente de negros, tinha a tez escura, coisa da genética. No Palácio do Governo havia um assessor que adquiriu fama quase nacional pelas constantes trapalhadas e a ele eram atribuídas gafes homéricas. O interventor dedicava-lhe um carinho todo especial, e Brasil Pinbeiro, era esse o seu nome, tornou- se figura folclórica nos meios políticos cearenses. Certa feita, Getúlio, no Rio de Janeiro, recebeu a notícia de que alguém havia tentado matar o interventor com um tiro de revólver. Imediatamente mandou passar um telegrama para o Palácio da Luz, sede do governo estadual: “Favor informar se o interventor foi alvejado”. No dia seguinte recebeu a reposta, enviada por Brasil Pinheiro: – “Não. Doutor Pimentel continua preto!”.
DUAS CARAS Paulo Ramos, interventor do Maranhão durante a ditadura de Getúlio Vargas, era tido como um dos homens mais feios do Brasil. Sua fealdade era nacionalmente conhecida e ele não se importava com os comentários e provocações dos adversários sobre a sua pobreza de dotes de beleza. Um dia foi procurado no Palácio dos Leões por uma senhora a quem havia prometido um emprego para a filha professora. A moça não foi nomeada e, depois de vários meses de espera pelo cumprimento da promessa, a mulher estava irritada e agressiva. Ao entrar no pequeno gabinete do interventor, foi logo atacando: – O senhor é um homem de duas caras. Promete e não cumpre!. Sem demonstrar qualquer perturbação, Paulo Ramos saiu-se com essa: – Ora, dona, a senhora acha que se eu tivesse duas caras estaria usando esta?
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