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Normandia: Marcel Proust, a costa florida e o Pays D’Auge (II)
O Pays d’Auge, por seu aspecto bucólico e o prestígio de seus produtos, é um dos melhores símbolos da abundância da Normandia. Ele forma um itinerário admirável com as praias da Costa Florida e tem suas marcas na aguardente Calvados, na sua cidra e no pommeau, com o caráter próprio, bem assim nos seus queijos (Camembert, Pont-l’Évêque e Livarot). A tipicidade da região se apresenta sobretudo na agricultura. Suas construções à colombages (lembrando um pombal), construídas em torno da casa principal, abrigam o forno, o pombal propriamente dito, os estábulos e, às vezes, o instrumental capaz de produzir, em forma rústica, as três bebidas típicas da região. Entre Lisieux e Caën, no coração do Pays d’Auge, a única rua de Beuvron-en-Auge alinha suas antigas casas à colombages, sob um céu onde vivem se alternando o cinza claro com o azul, cores que tanto seduziram os pintores impressionistas. Uma imagem tipicamente normanda. Construídas na altura dos séculos XVII e XVIII, frequentemente utilizando materiais vindos de construções anteriores, a maior parte das casas testemunha a verdadeira arquitetura da região: algumas possuem estilo à colombages, outras são à galandages (com paredes de tijolos). O restaurante Le Pavé d’Auge, bem no centro da praça única, é um exemplo vivo, nos dias de hoje, do estilo. O castelo de Crévecoeur-en-Auge. O pequeno burgo que está no vale da região d’Auge deve seu renome ao castelo, notavelmente restaurado pela dinastia Chlumberger. É também o ponto de partida ideal para o conhecimento profundo da região. Fica a meia distância de Caën (34km) e de Lisieux (20km). Cercado de árvores, com as construções seguindo a técnica pans de bois, o castelo data do século XI. Foi transformado no século XV e restaurado, definitivamente, em 1972. O conjunto forma um quadro muito pitoresco na lógica medieval, sem aparente proteção à integridade da propriedade, lembrando a Brasília dos primórdios. Finalmente Lisieux. Situada no Vale da Touques, Lisieux tornou-se o primeiro centro comercial e industrial do rico Pays d’Auge. Mas é à Santa Tereza que a cidade deve sua notoriedade atual. Ali estão peregrinos de todo mundo para visitar a casa dos Buissonnets ou a Basílica que lhe é dedicada, em seu monumental estilo neo-bizantino. As origens de Lisieux remontam à Antiguidade Clássica. Era a capital da tribo dos Lexovii, submetida à dominação romana em 57 a.C. por Crassus, General de César. Na Idade Média e até a Revolução Francesa, a cidade prospera sob a égide dos condes. Foi duramente atingida pela guerra. Três bombardeios severos, em junho de 1944, destruíram a maior parte da cidade. No centro algumas casas antigas subsistiram. Da grandeza medieval da cidade só subsistiram a catedral de São Pedro, o jardim do arcebispo e o Palácio Episcopal. Nascida em 2 de janeiro de 1873, de uma família cristã, Thérèse Martin, criança muito sensível, demonstra desde cedo uma vontade e uma inteligência inusuais. Com a morte da mãe, M. Martin se instala em Lisieux, nos Buissonnets. Thérèse cresce aí cercada de ternura e de piedade e quando sua irmã Pauline entra no Carmelo ela sente, desde então, aos nove anos, afirmar-se sua vocação religiosa. No domingo de Pentecostes de 1887 seu pai a autoriza a entrar no Carmelo, mas as autoridades eclesiásticas a julgam ainda muito jovem. Participando da pelegrinagem diocesana em Roma, ela dirige pessoalmente seu requerimento ao Papa. Em 9 de abril de 1888, com a idade de quinze anos, Thérèse entra no Carmelo. Retirada para o claustro, onde ela vem para salvar as almas e sobretudo para rezar pelos padres, a irmã Thérèse do Menino Jesus atinge os graus da perfeição. Sua alegria e sua simplicidade oferecem a marca única. Ela redige então o manuscrito de sua vida, história de uma alma pura. Envia as últimas folhas precisamente antes de entrar na enfermaria do Carmelo, onde falece, em 30 de setembro de 1897, com a idade de 24 anos e 9 meses, depois de uma lenta agonia. Beatificada em 1923 e canonizada em 1925, Santa Thérèse do Menino Jesus foi proclamada “dou- tor da igreja” por João Paulo II em 19 de outubro de 1997. A tradição da pelegrinagem sobre o túmulo de Santa Thérèse remonta aos primeiros anos do século XX. Ela atinge todo o seu esplendor por volta de 1925, depois da beatificação. A Basílica é, então, construída para receber os peregrinos que afluem a cada ano. Nos dias correntes, de 700 a 800 mil visitantes, de todas as nacionalidades, vêm a cada ano a Lisieux. E entre o último domingo de setembro e 1º de outubro, mais de 15 mil peregrinos vêm orar diante do túmulo da Santa, em celebração de mais um aniversário de sua morte. Por volta de 1170 começaram as obras para a construção da Catedral de São Pedro, em Lisieux, terminadas no meio do século XIII. Sua fachada contempla três portais que dominam duas torres. A da esquerda, inacabada, seduz pelas suas colunas angulares. No interior, o transepto é de grande simplicidade e na nave, mais homogênea do que nas demais construções góticas, colunas cilíndricas que suportam as grandes arcadas. Contornando o coro pelo deambulatório, ganha-se a grande capela axial, onde Santa Thérèse assistia à missa. A pequena cidade de Orbec, 20 quilômetros ao sudoeste de Lisieux, com numerosas casas que datam do fim da Idade Média, guarda a lembrança de um grande compositor: Claude Debussy. Foi, com efeito, num jardim do prédio de Croisy, no número 3 da rua Grande, que ele teria encontrado inspiração para sua obra marcante Jardin Sous la Pluie. Na confluência de vários rios, Pont-l’Évêque continua sendo um ponto inesquecível do Pays d’Auge. Se normalmente o nome sugere apenas seu queijo renomado, suas ruelas bordadas de casas à pans de bois, igualmente jardins belíssimos e o inesquecível interior participam do seu imenso charme. O tesouro leiteiro da região é reputado desde o século XIII, a partir de quando o Roman de la Rose, de Guillaume de Lorris, o menciona. O queijo Pont-l’Évêque teria em sua origem sido produzido pelos monges de uma Abadia existente na região. Então chamado, como todos os queijos normandos, Angelot, ele, no século XVII, é mencionado no poema de Cordier: “O queijo é feito aqui com tanta arte que, jovem ou velho, ele não é senão um creme”. É naquela época que adquire a sua denominação definitiva. Classificado AOC depois de 1973, é de maio a junho, com uma affinage de cinco a seis semanas, que essa grande estrela obtém o melhor de sua forma. Nas imediações está o castelo de Betteville. Que não se pode desprezar. Domaine Coeur de Lion-Calvados Christian Droin (2km de Pont-l’Évêque pela estrada de Trouville). Empresa familiar, distribuída em várias casas à colombages do século XVII. A produção familiar, Calvados, Cidre e Pommeau, foi recompensada por 410 medalhas e diplomas. A visita inclui local de envelhecimento, ateliers de destilação e de acondicionamento e, também, de degustação, com balcão de vendas. Uma excursão nessa belíssima região do norte da França nos mostra que ela não se limita às estações balneárias ou ao turismo verde. Abadias, priorados, castelos, quintas pontuam de forma irreprochável as paisagens, para maior prazer dos amantes da História. O quadro seria incompleto sem os prazeres da mesa, prazeres para os quais a região oferece a sua marca. Gourmands et gourmets não se enganam jamais depois de sucessivas gerações.
RESTAURANTES QUE SE RECOMENDAM Dives-sur-mer. Restaurant Guillaume le Conquérant (Michel Lefranc). 2, rue d’Hastings, tel 0231910726. Cozinha gastronômica du Terroir. Lareira do Séc. XII. Soupe de Poisson, uma lembrança, à mesa, do gosto do mar. Jambon braisé à la Normandie, presunto levemente grelhado, deixando marcas da grelha na robusta porção. Vinho Haut Médoc Cru Bourgeois 2004 Chateau Lieujean, um Bordeaux honesto, nada excepcional, mas sinalizando com precisão a região de onde proveio. Honfleur. La Terrasse & l’Assiette. 8, Place Sainte- Catherine, tel 0231893133. Incrustado na parte mais marcante da bela cidade. Fine brandade de morue et saumon fumé, vinaigrette de persil, poisson noble du jour, selon la marée, camembert rôti au caramel poivré (camembert levemente assado, coberto de calda de caramelo com pimentado- reino, sobre cama de salada verde temperada com azeite de oliva). Sobremesa excepcional: soupe de fraiser à la rhubarbe, frutas vermelhas com rhubarbe, calvados, calda de suco de amora e groselha, bem gelada. Vinho St. Joseph Deschants M. Chapoutier 2001, excepcional, um verdadeiro e inolvidável Côte-du-Rhône. Beuvron-en-Auge. Le Pavê d’Auge. Mesa privilegiada na pequena vila oferecendo os melhores produtos do vale da região d’Auge e do mar, tão próximo. Cabourg. Le Grand Hotel. Restaurante do Hotel, valendo a visita. Promenade Marcel Proust, tel. 0231910179 Trouville-sur-mer. Le 4 Chats. 8, rue d’Orleans, tel. 0231889494. Le tout Paris. Endereço que é um regalo, prazer garantido.
Referências bibliográficas Christian Péchenard Proust et les autres, La Table Ronde, 1999. Ferdinand Denis Uma Festa Brasileira celebrada em Rouen em 1550, Usina de Idéias, São Bernardo do Campo, tradução de Junia Guimarães Botelho, 2007. Michelin, Normandie Vallée de la Seine, Le Guide Vert, 2007. Le Journal du Calvados nº 93, Automne 2008, Le Magazine du Conseil General du Calvados. Thérèse de Lisieux nº 890, juillet-aût 2008. Marcel Proust À sombra das moças em flor, Trad. Fernando Py, Ediouro, 2001. Marcel Proust Os prazeres e os dias, Trad. Solange Pinheiro, Codex, 2003
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